No lodo, há lírios
Por Marcos Vinicius Cabral
Quando Machado de Assis (1839-1908) escreveu, em Esaú e Jacó, lançado em 1904, que “O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto” talvez não imaginasse que, mais de um século depois, suas palavras penetrariam em meu coração de uma forma tão particular na história que construí com Paulo Angioni.
O tempo, de fato, muda tudo. Ressignifica momentos. Transforma pessoas. Aproxima desconhecidos e cria laços nos encontros.
De agosto do ano passado para cá, quando fui apresentado a Paulo Angioni e recebi o convite para escrever um livro contando a sua história, alguma coisa começou a mudar em mim.
No início, confesso, enxergava diante dos meus olhos apenas um homem que carregava 46 anos dedicados ao futebol. Via nele um dirigente respeitado, vencedor, daqueles que atravessaram décadas e deixaram marcas em alguns dos maiores clubes do país.
Eu sabia da responsabilidade que teria pela frente. Mas ainda não sabia da dimensão da história que estava prestes a conhecer.
Escrever "O Poder do Silêncio no Futebol" me aproximou, pouco a pouco, não apenas do dirigente que o futebol brasileiro aprendeu a respeitar.
Aproximou-me do homem. Do pai. Do marido. Do sogro. Do avô. E foi aí que tudo mudou.
Paulo Angioni não era um dirigente preocupado apenas com o campo, a bola, os resultados, as contratações e os títulos. Ele olhava para o atleta.
Antes do jogador, enxergava o ser humano, como não cansava de dizer com aquela voz suave e pausada. Antes do contrato, muito antes, enxergava a história. Antes do erro, enxergava a possibilidade de recomeço.
“Eu gosto de pessoas perfeitas, mas amo as imperfeitas”, disse-me certa vez, enquanto almoçava no Shopping Tijuca.
Frasista de mão cheia, fiz questão de colocar essa frase - entre tantas outras que estão no livro - em uma das suas 282 páginas.
Porque aquela frase explicava Paulo Angioni. E talvez explique também por que tantas pessoas o amavam.
John Kennedy, autor do gol que decidiu a final da Libertadores contra o Boca Juniors e deu ao Fluminense o título mais importante de sua história, é uma dessas histórias.
Quando muitos já não acreditavam no camisa 9 tricolor, Paulo Angioni decidiu acreditar. Foi voto vencido, é verdade. Mas ele, arguto como sempre foi, desafiou a lógica e apostou na recuperação do garoto.
Não apostou apenas no jogador. Investiu no homem.
Talvez porque Paulo soubesse que, muitas vezes, para salvar um jogador, é preciso primeiro salvar a pessoa que existe dentro dele. Mas isso não era coisa nova no trabalho desenvolvido por ele.
Ainda nos anos 1980 e 1990, quando construía os primeiros capítulos de uma trajetória que atravessa gerações, tornou-se amigo íntimo de Roberto Dinamite, aconselhou Romário - então ainda desconhecido no Vasco - e soube lidar com um animal tão complexo quanto Edmundo.
Eu, apaixonado por histórias, não poderia deixar de me apaixonar por aquele homem que carregava tantas delas.
Então fiz o que talvez tenha sido uma das coisas mais importantes que aprendi com ele: ouvi. Fiz questão de ouvir, porque Deus nos deu dois ouvidos e uma boca. Talvez não seja por acaso.
E eu apenas dei linha na pipa do 'menino' Paulo Angioni. Deixei que ele voasse.
E ele voou por histórias que atravessaram décadas.
Algumas dessas histórias me levaram para muito além do futebol. Levaram-me para perto do namorado de Ana Luiza, do pai da Ana Paula, do avô da Catarina e do sogro do Diogo.
Levaram-me para dentro da ‘Família Angioni’. E foi ali que descobri que o homem que eu conhecia pelo futebol era ainda maior quando o futebol desapareceu das nossas conversas.
Naquele momento, conheci um ser humano extremamente preocupado com as pessoas que estavam ao seu redor. Um homem capaz de ajudar sem que ninguém precisasse pedir.
Fez isso comigo.
Quando comentei que corria o risco de ser demitido do meu trabalho, Paulo simplesmente me olhou, interrompeu o almoço, pegou o telefone e pediu a alguém do Fluminense que desse uma atenção especial “ao jornalista que está escrevendo o meu livro”.
Ele fez questão de dizer isso.
Talvez pareça uma pequena atitude.
Para mim, não foi.
Há gestos que não cabem em fotografias, não aparecem nos pôsteres de campeão e jamais serão registrados em uma taça.
Mas ficam. E ficam justamente porque foram feitos quando ninguém estava olhando.
Outra coisa que me chamou a atenção foi perceber que Paulo Angioni demonstrava uma alegria quase infantil com o livro que estávamos produzindo. Antes de toda essa loucura acontecer, a ideia era lançá-lo em outubro.
Eu ainda consigo imaginar a alegria dele falando sobre o livro. E é justamente isso que dói. Porque agora o livro existe. As 282 páginas existem. As histórias existem. As frases existem. As lembranças estão na obra literária de um gênio do futebol brasileiro.
Mas Paulo não estará aqui para segurá-lo nas mãos.
E talvez essa seja uma das maiores ironias da vida.
O homem que passou décadas ajudando a reconstruir carreiras, clubes e histórias não terá a oportunidade de ver lançado o último capítulo da própria história que me ajudou a escrever.
Paulo Angioni morreu na madrugada de sábado, 12 de setembro.
Na manhã seguinte, seu corpo foi velado no Salão Nobre das Laranjeiras.
Era domingo.
O céu estava nublado e o barulho da chuva caía. O dia parecia triste. E, por alguns instantes, tive a sensação de que o próprio tempo havia decidido fazer silêncio.
Coisa estranha. Foi como se o Rio de Janeiro também soubesse que alguém muito importante havia partido.
A beleza daquele domingo estava escondida. Não apareceu no céu. Não apareceu no sol. Não apareceu nas cores e pessoas passeando pelo bairro.
Talvez porque, naquele dia, a gente precisasse enxergar com os olhos da saudade.
Sem Paulo, os dias serão diferentes. Mais silenciosos. Mais vazios. Porque algumas pessoas não passam pela nossa vida em vão.
Elas deixam uma espécie de morada dentro dela.
Paulo Angioni foi assim.
Em apenas 13 meses, deixou em mim marcas que talvez outros não deixassem em décadas. Cheguei para escrever a história de um dirigente e saio com a sensação de ter escrito a história de um amigo.
E foi nesse intervalo entre o jornalista e o amigo que Paulo Angioni, sem perceber, foi me lapidando.
A cada encontro. A cada mensagem. A cada ligação. A cada conselho.
Aprendi com ele, por exemplo, que não se deve entrar em uma discussão de cabeça quente. Paulo me ensinou que existem batalhas que não precisam ser travadas no instante em que aparecem.
É preciso esperar. Respirar. Regar o terreno. E deixar que o tempo faça o seu trabalho. Ele me ensinou que até o ódio pode ser vencido pela paciência.
Que, às vezes, é preciso regar o terreno onde nasceu a raiva para que, no lugar dela, possa nascer uma flor.
Talvez seja essa a maior lição que ele me deixou.
Porque a vida de Paulo Angioni foi construída muitas vezes no lodo.
No ambiente difícil do futebol.
Nas crises. Nas desconfianças. Nas injustiças. Nas decisões que dividiam opiniões.
Nos momentos em que todos enxergavam problemas, ele procurava soluções.
E, mesmo assim, ele encontrou lírios. Encontrou pessoas. Encontrou amigos. Encontrou histórias. Encontrou caminhos. Encontrou amor e uma família que o amou até a sua morte.
Encontrou, inclusive, um jornalista que chegou para escrever um livro e terminou escrevendo, sem perceber, parte da própria história.
Sem querer parecer piegas, Paulo Angioni não construiu apenas uma história de sucesso nos clubes por onde passou. Ele se tornou parte da história desses clubes.
Seus feitos não passam despercebidos.
Mas talvez o maior legado não esteja nos títulos, nas contratações, nos cargos ou nas crises que ajudou a solucionar.
Talvez esteja nas pessoas.
Naquelas que ele aconselhou, ajudou, recuperou e nas que acreditaram nele.
E, principalmente, nas que passaram a acreditar em si mesmas porque, em algum momento, Paulo Angioni acreditou nelas.
E saber que Paulo confia em você, é meio caminho andado para atingir à alegria plena.
É por isso que a despedida doeu tanto.
Porque não levamos o corpo de um simples dirigente para ser velado no Salão Nobre das Laranjeiras.
Nos despedindo de um homem que fez do futebol um caminho para conhecer pessoas e fazer amigos.
E amizade, para Paulo Angioni, era algo inegociável.
O futebol brasileiro perde um profissional que transformou crises em reconstrução, que acreditou no atleta e que compreendeu, como poucos, que nenhuma vitória vale mais do que uma vida transformada.
Eu perco um amigo.
E talvez seja justamente aqui que Machado de Assis volte a fazer sentido.
O tempo vai roer as coisas e alterar os contornos.
Vai transformar a presença em lembrança.
A voz em memória.
Os encontros em saudade.
Mas há coisas que o tempo não consegue destruir.
Uma frase. Um gesto. Um conselho. Um olhar. Uma amizade. Uma história.
E, principalmente, o amor que alguém deixou pelo caminho.
Paulo se foi. Mas ficou.
Ficou no futebol, nos clubes, nos jogadores, nos amigos e na família.
Ficou também nas 282 páginas de um livro que ele ajudou a construir.
E ficou em mim.
Talvez porque a vida seja exatamente isso: mesmo quando tudo parece lodo, há sempre a possibilidade de nascer um lírio.
E Paulo Angioni foi um deles.
Um lírio que floresceu no futebol e entre pessoas.
Um lírio que, mesmo depois de partir, continuará florescendo na memória de quem teve o privilégio de conhecê-lo.


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